Voltar
Aumentar Fonte   Diminuir Fonte
Controle da Fonte



Por um Pouco de Esperança - Por Dilma Evangelista da Silva

 

A libélula voava leve e solta, em volta da mesa, bailando distraída, até que, inadvertidamente, deixou-se cair sobre as bordas da calda açucarada, restos de cobertura de um pudim, ali deixado casualmente. Uma asa totalmente presa, e a outra, a mover-se lentamente como a pedir socorro, chamaram-me a atenção. Tirei-a, com cuidado e, delicadamente, com um pouco de água, libertei-a do doce-amargo que a impedia de alçar voo. Pouco depois, cruzava, lépida, o ar e seguia rumo ao desconhecido. Valeram-lhe a pena suas tentativas para libertar-se e sua “espera” por ajuda...

 

Pensei, então, no homem de nossos dias, em suas pequenas tragédias diárias, seu medo do outro, o pavor escondido em cada esquina, a insegurança, a ansiedade, a angustia, as frustrações, o tédio; em sua realidade dura, angustiante e questionável, na qual o desenvolvimento da ciência convive com a desumanização do ser humano; na sociedade cujas estruturas estão imersas numa crise ética e moral, mais do que sócio-política – corrupção, uso particular e pessoal de bens públicos, impunidade, falta de decoro, de civismo, entre outros-, à qual se somam os gemidos do mundo, materializados na pobreza, na doença, no desemprego, na marginalização, na violência, o que avilta o povo e o desfigura.

 

Os homens estão todos paralisados; pesam-lhes os pés, que se afundam nas areias do deserto em que vivem. A monotonia de seus dias sem manhãs, a incerteza quanto ao futuro, a depressão que se instala no corpo e na mente de cada um, tiram-lhes a coragem de lutar, fazem-nos perder o sentido e o valor da existência. Como a libélula, seus movimentos foram cerceados. Eles não encontram forças para reiniciar a caminhada na trilha já conhecida, para debelar as desigualdades opressoras, para recriar seus espaços vivenciais.

 

No entanto, o homem tem direito à vida. Há que ressuscitá-lo dessas pequenas mortes. A vida não é só Paixão, Calvário, mas vitória, Domingo de Páscoa. É preciso dar mais um passo, romper grilhões, sonhar, alimentar esperança.

 

Como a Fênix, a esperança renasce a cada instante e tece momentos melhores, trazendo a desejada instauração de uma realidade nova. Com ela, se tingem de beleza e alegria os acontecimentos mais triviais, se renovam as chances de crescimento, se constrói um homem novo, se enchem de compreensão e solidariedade fraterna os corações. O inverno de nossas vidas ganha tonalidades de primavera se a esperança o aquece. Se a cultivamos, podemos vislumbrar outros amanhãs; semear, na certeza da colheita; crer na aurora que desponta, num devir alvissareiro, numa era de amor, respeito e justiça.

 

Não importa que seja chama fraca, quase a se apagar. Essa centelha é promessa de sorriso nos lábios, de brilho nos olhos; de projetos que se realizam, de mundos que se recriam. Por ela, Moisés alcançou o Sinai, Abraão atravessou terras estranhas e desconhecidas, Sara gerou um filho temporão, Cristo morreu na cruz. Por acreditar que o sopro da esperança jamais será interrompido e seu chamado jamais silenciado, Gandhy lutou pela independência da Índia, Luther King defendeu sua raça, padre Romero derramou seu sangue em defesa dos direitos do ser humano, Guevara deu a vida pela transformação socioeconômica e política na América Latina, Tereza de Calcutá e Irmã Dulce construíram uma história de renúncias e entregas em prol de seu próximo, Irmã Dorothy sucumbiu, por força da crueldade de seus algozes.

 

Dádiva divina, a esperança é a cura das mágoas, o afago da saudade, a preservação da magia e do encanto dos encontros. Ela nos faz manter o equilíbrio nesse mundo instável, neurotizante e caótico; através dela, se dissipam as trevas e se recompõem os espíritos atribulados; desfazem-se incompreensões e inconformismos. Buscá-la é um dever; cultivá-la é uma arte que exige determinação, lucidez e disciplina; vigilância de nós mesmos, enfrentamento dos reveses da vida. É preciso que, como diz o Pequeno Príncipe, “a gente se conforme em arrancar, regularmente, os baobás, tão logo se distingam das roseiras, com as quais se parecem quando pequenos” (Exupéry). Tomemos, pois, nas mãos, as nossas esperanças, mesmo que, teimosamente, resistam e as lancemos em direção a novos horizontes, para que o milagre da renovação do espírito do homem aconteça e a justiça não seja apenas uma quimera.

 

Como educadores, somos fundadores de mundo, como diz Rubem Alves. Assim, pondo de parte tudo que nos limita, soltemos as correntes de nossos pensamentos, para que consigamos quebrar as correntes do corpo, livrar-nos do peso que nos prende à terra, e, independente de tempo e espaço, voemos em direção à liberdade, como fez a nossa libélula. E que, imitando o sábio Chiang (criação de Richard Bach), nunca deixemos de aprender, de nos exercitar e de lutar pela justiça, por compreendermos, cada vez melhor, o perfeito e invisível princípio de toda vida: o ideal da perfeição, do amor, que nos aproxima de nós mesmos, do outro, da comunidade e de Deus.

 



Voltar para o Topo



|| Fundação José Carvalho ||

www.fjc.org.br - 2016
Desenvolvido por: